AUTISMO LEVE E O SUICÍDIO

Holanda, 18 de setembro, 2018

Por Fatima de Kwant

 

 

Setembro é o mês internacional da Prevenção do Suicídio. Batizado de “Setembro Amarelo”, a campanha pretende conscientizar a população mundial sobre o que faz parte do pensamento diário para muitos jovens adultos, principalmente.

Segundo a última pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), o índice de suicídio aumentou para 25% em comparação com o ano de 1999. Entre jovens de 15 a 29 anos, encontra-se as taxas mais altas. No que diz respeito ao Autismo, em particular, o autismo considerado Leve (como na Síndrome de Asperger), o suicídio é 9x mais frequente do que nos jovens sem autismo. Além disso, 28% dos autistas leves já pensaram, ou pensam constantemente em tirar sua própria vida.

São dados alarmantes. A boa notícia é que 96.8% dos casos de suicídio têm solução!

 

O Suicídio é coisa séria

A vida é difícil para todos. Porém, para um adulto com autismo a vida pode ser muito complicada, e tão desafiadora que ele pode sentir vontade de desistir dela.

Para serem aceitos e incluídos, muitos autistas fazem uso de “máscaras”, artifícios dos quais fazem uso após anos de frustração, na tentativa de se adaptarem às expectativas da sociedade. Porém, usar estes subterfúgios o tempo todo, esgota. Seja em casa, na faculdade, no trabalho, nas relações pessoais -, os autistas com a cognição e a capacidade intelectual média a alta lidam com o preconceito quase que diariamente. Não todos, obviamente, mas uma grande parcela encontra desafios que consideram insuperáveis. A falta de compreensão por meio da comunidade em que vivem, pode ser o estopim para pensamentos sombrios que os leve a cogitar o término de suas vidas.

Fato é que para uma grande parte desses (jovens) adultos autistas viver é um “trabalho” exaustivo; uma função que lhes custa tempo, energia e muito esforço.

É preciso que eles (re)descubram a alegria de viver. É dever da sociedade proporciona-lhes as ferramentas para que atinjam o bem-estar pessoal.

Um bom começo

A família é a primeira comunidade onde uma criança pratica a participação na vida. Ali, geralmente, existe uma aceitação instintiva da diferença que ela apresenta, por seus pais e irmãos. Apesar de diferentes na socialização e no comportamento, as crianças autistas recebem amor, carinho e compreensão da família. Isso é maravilhoso e muito desejável. No entanto, à medida que crescem, descobrem que “o mundo lá fora” (escola e ambientes fora de casa) não pensa igual a seus pais. Ele é considerado “estranho” e pode até sofrer bullying por ser autista. Graças à sua inteligência, a criança autista passa a agir como as outras, imitando seu comportamento. Outras vezes, estimulados por seus pais a agirem “normalmente”, para não chamarem tanta atenção (negativa). Ao contrário dos autistas mais severos, os autistas leves sente a pressão social de ser como os outros, neurotípicos. Ansiosos por estabelecerem e manterem relacionamentos com os neurotípicos, fazem um grande esforço para agir como estes agem. Isso lhes custa muito, ainda que não percebam. Seu nível de ansiedade e estresse aumenta a cada tentativa de se adaptarem ao que todo mundo (menos eles) parece fazer, dizer, gostar, achar, etc.

Um dia, esse esforço sobrenatural, durante tanto tempo, vem cobrar sua paz. É quando a pessoa autista pode entrar numa fase de depressão profunda, onde parece que, por mais que se esforce, nunca será “boa o suficiente” para agradar os neurotípicos.

Na adolescência é comum pais relatarem que seus filhos autistas não mais acreditam no que eles falam, quando dizem que são pessoas especiais, inteligentes, lindas, incríveis. Apesar de sentirem o amor verdadeiro e incondicional da família, muitos querem ser aceitos PELOS OUTROS – pela sociedade. Querem ter amigos, um relacionamento amoroso, conseguir um estágio ou um trabalho; os autistas querem fazer parte da sociedade e não conseguem.

 

 

A Máscara que cai – o Espectro da Neurodivesidade

A sociedade precisa compreender que o autismo é normal. O autismo acontece tanto quanto o não autismo. No Espectro da Neurodiversidade, existem pessoas autistas e pessoas não autistas que podem ter, ou não, comorbidades*, e uma diversidade de características que os une e/ou separa. No fim, são (somos) todos seres humanos querendo ser aceitos, compreendidos e incluídos na sociedade como pessoas inteiras, merecedoras do bem-estar que merecemos, todos, sem exceção.

Portanto, para ajudar nossos autistas, devemos fazer com que se orgulhem de ser quem são, independente da opinião alheia. Este é um processo que começa em casa, continua na escola (que ainda peca pela falta de Inclusão de verdade) e segue nos demais setores da vida.

 

Respeite o Espectro. Fale Neurodiversidade. Abrace a Divergência

Autoestima – um presente

Um dos maiores presentes que podemos dar aos autistas, além da atenção e da independência, é a autoestima. Uma pessoa cuja autoestima esteja preservada, não vai se abalar pelo julgamento alheio. Saber quem é, o que quer, o que não quer, o que pode, seus pontos fortes e fracos, estando de bem com isso, vai definir a qualidade de vida da pessoa com autismo, no futuro.

 

“O Autista leve sabe que é diferente”

 

A família tem uma função importante na autoestima do autista. Quanto mais cedo o autismo for considerado normal e parte da criança, mais fácil a sua própria aceitação, nos anos futuros. Deixem a palavra “autismo” cair naturalmente, dentro de casa. Ter autismo não deveria ter uma conotação negativa, pelo menos não no berço. Com frequência, pais e mães não sabem como contar a seus filhos, autistas (leves), que eles têm autismo. Ou ficam com muito receio de tocar no assunto com eles. Novidade: seu filho autista sabe que é diferente. Essa diferença tem nome. Não espere que ele ouça na escola, ou descubra na internet (ele é inteligente e vai pesquisar o que há “de errado” com ele) que é autista. Fale sobre o autismo de um modo natural, leve, e positivo, de preferência. À medida que cresce, elabore a conversa, apontando as dificuldades (não chame de “defeitos”) que encontra e que têm relação com o autismo. Peça ajuda de um psicólogo ou profissional especializado em autismo para reforçar a confiança em si mesmo. Assim, quando chegar na adolescência, estará mais preparado para enfrentar eventuais preconceitos. Estes, muitas vezes acarretam na depressão e pensamentos sombrios, como o suicídio.

 

Você não está só

Apesar do autista carregar o peso da solidão, ele deveria saber que não está só. Divide muita coisa em comum com outros mais milhões de pessoas no mundo. Seria bom falar com alguém sobre seus receios e seus medos, pois são mais comuns do que o autista possa pensar no momento de depressão. Conversar com quem queira ouvir, de verdade, é muito positivo.

 

O que fazer?

Se você desconfia que um autista querido considere o suicídio, ofereça ajuda. Ouça o que ele tem a dizer. Escute sua história, sem interrompê-lo com frases que possam agravar seu estado, como: “Não faça isso! Não pense assim! Você tem tudo… Por que quer se matar?…” Rechaçar um sentimento legítimo – ainda que indesejável – não vai ajudar, pelo contrário. Se perguntar, faça as perguntas certas, sinceras e demonstrando compreensão com sua dor. Evite dar conselhos ou se mostrar chocado por ele falar em suicídio. Lembre-se que este é um assunto que domina a mente de quem cogita a ideia de tirar a vida. Dê atenção ao autista. Sugira buscarem ajuda, juntos. Indique um especialista, ou recomende uma visita ao site do Centro de Valorização da Vida (CVV), por exemplo. Ou ligue para 188, para ser atendido diretamente. Ali, o autista vai encontrar ajuda gratuita, por pessoas treinadas para ouvi-lo e direciona-lo da melhor forma.

 

O Autismo Leve “pesa” para muitos. Leia mais sobre o tema, busque informaçoes de qualidade para entender, e respeitar as pessoas autistas que passam pela fase mais delicada de suas vidas.

 

*comorbidade – ocorrência de duas ou mais doenças/condições numa só pessoa.

 

 

Fatima de Kwant é jornalista, autora do best-seller holandês “Autisme, een Geschenk”, Especialista em Autismo & Desenvolvimento e Autismo & Comunicação, Coach de Adultos com Autismo leve ou Aspergers, palestrante internacional, Conselheira da Associação Holandesa de Autismo, Mama Vita.

 

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