SOBRE A VIOLÊNCIA NAS SALAS DE AULA, PROFESSORES E JEDIS

Por Fatima de Kwant

Holanda, 04-02-2016

O texto de hoje não tem a ver com autismo, mas é pertinente. Tem a ver com crianças. Crianças que frequentam escolas regulares. Crianças violentas, agressivas, mal-educadas. Crianças que necessitam atenção, antes de tudo.

Há algumas semanas, eu explicava ao meu filho adolescente como funcionavam as escolas na minha época: fazer fila, usar uniforme engomado, cantar o hino todas as segundas-feiras e, principalmente, ficar em silêncio quando o professor lecionava. Totalmente contrário ao que acontece hoje em dia nas escolas brasileiras e de quase todos os países onde a violência predomina. O professor, antes respeitado, agora é desafiado, humilhado e por vezes agredido por alunos cada vez mais atrevidos.

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Imagem: senadorpaim.com.br

Lembro que as reuniões de pais serviam para dar o feedback dos professores. Tanto o bom quanto o mau comportamento era analisado, e os mestres contavam com a ajuda dos pais na correção de um eventual desregramento. Estes ouviam com atenção e tentavam solucionar o problema, aumentando a vigília na educação de casa.
Mas estes eram os velhos bons tempos. Hoje, o contrário é regra. Professores que tentam, em vão, contar com o auxílio dos pais na correção de um mau comportamento, muitas vezes são vítimas de pais também agressivos, defendendo seus filhos acima de tudo, sem sequer refletirem sobre o que lhes é dito. Como mãe de um filho autista sou capaz de virar uma leoa à hora de defende-lo da ignorância que acerca o autismo, com todas suas limitações e possibilidades. Se tem alguém que saiba escudar o filho, este é o genitor/a de uma criança considerada deficiente. No entanto, neste texto me atenho às crianças consideradas “normais”, ou seja, que a priori têm a capacidade de agir de acordo com as regras sociais vigentes. Curioso é perceber que muitos autistas, como meu filho, têm um comportamento excelente na escola, enquanto baderneiros geralmente não são autistas, Mas isso é papo para outro texto.

Professores não podem nem devem solucionar um problema que, basicamente, vem de casa. Uma criança agressiva precisa de repreensão e de ajuda ou até mesmo de tratamento, mas nunca de seguir desrespeitando aqueles que são pagos para lhes ensinar e não para lhes educarem em humanidade.

Pais que trabalham inúmeras horas diárias para comprarem presentes exclusivos para seus filhos deveriam fazer uma análise profunda daquilo que é, de fato, prioridade em suas vidas. Criança não precisa de brinquedos caros; criança precisa de amor, de atenção e de limites.

A geração do “politicamente correto” acabou com conceitos que vinham vingando durante décadas. O respeito pelos mais velhos e professores era o mínimo de educação que vinha do berço. Ok, muitas crianças também eram castigadas injustamente com palmadas ou outras agressões físicas e verbais cometidas por estes mais velhos – e alguns professores. Obviamente condenável. Contudo, entre o primeiro e o segundo tipo existe uma linha saudável de comportamento: a do respeito mútuo.

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Imagem: revistaescola.abril.com.br

Gritos e agressões são manifestações egoístas e infrutíferas. Experimente gritar com seu filho. No primeiro dia vai assustá-lo; no segundo, vai irritá-lo; no terceiro, não mais fará efeito; no vindouro, irá tornar-se um hábito.Pais devem ensinar seus filhos a dialogar e a notar a força que um comportamento controlado exerce sobre o interlocutor.

Se você não é um pai ou mãe agressivo/a, pense naquilo que funcionou na sua própria educação e veja como poderia traduzir isso para o indivíduo que seu filho é. Seu filho é sua obra de arte. Busque nele a unicidade que tem. Haja com ele como gostaria de ver outros agindo com você e como gostaria de vê-lo agindo com você, no futuro. Para isso, é preciso que acompanhe, conscientemente, o seu desenvolvimento. Companheiro/a sim, mas antes de tudo pai e mãe; educador do lar, JEDI (mestre).

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Imagem: papofeminino.uop.com.br

Ame seu filho, passe bastante tempo com ele. Caso não seja possível, faça que cinco minutos durem uma hora. Conheça seu filho. Do que gosta, pelo que se interessa? Quando foi que jogar Monopólio com a família ficou menos legal do que jogar o Mortal Combat que você comprou para ele jogar sozinho? Não se permita influenciar pelo que “todo mundo faz”. Seu filho não é todo mundo. Diga isso a ele. Diga que é uma pessoa da qual você se orgulha e pretende seguir se orgulhando durante toda a vida. Seu filho, uma criança especial, que respeita os mais velhos, os limitados e seus mestres: seus pais e professores.

Abraços para os professores que dão seu melhor.
Abraços aos pais que estão criando seres humanos dos quais possam se orgulhar, um dia.

Boa sorte para todos que estão tentando.
Fatima de Kwant

Sobre Fatima de Kwant

Fatima Kwant is an autism advocate, author of autism related articles, and creator of the International Autimates Project - Overcoming Prejudice with Information. She is a Brazilian journalist leaving in the Netherlands with her family. Her youngest son, 18 years old has autism and formerly diagnosed as severe autistic. Recently this diagnose has been withdrawn. Fatima is also an expert in many aspects of the Autism Spectrum, especially Autism & Development.